Ele nunca havia pensado em se aquietar, em pertencer a algum lugar. Acredita que o preço que se paga pela estabilidade seja muito alto, que acabamos importando excessivamente com o que as pessoas esperam de nós.
Ela também sempre foi levada pelos ventos do norte, que avisavam a hora de mudar de casa, de cidade, de país. Quando o conheceu, ela sentiu que encontrou uma versão ambulante do seu espelho:
- Mas isso é tão ruim? – ela perguntou. Ter pessoas que esperam alguma coisa de você?
Ele ficou em silêncio, porque não quisesse responder, porque não soubesse responder. Ela havia distorcido o seu reflexo com o enigma que ela mesma nunca decifrara.
Ele se foi antes de descobrir, sem avisar. Em suas peregrinações, carregava na bagagem a certeza de que não poderia sair por ai medindo as bondades pelo que não fazia, pelo que sempre negou ou resistiu, e a quem excluiu. A sua métrica estava em quem abraçava, no que criava, a quem incluía.
Eles se encontraram parecidos e se deixaram estranhos.
Ela já sabia da partida, e assistiu escondida o barco dele desatracar da margem e ser levado pelas águas do rio. Demarcou a retomada de sua vida jogando fora a poeira que a fazia crer na mudança, sempre que um vento forte batia.
Pois ele - o vento do norte continuaria soprando, insatisfeito. Ele falava de cidades que ainda restavam por ser visitadas, pessoas que precisavam ser descobertas. E ela, que já se pareceu com ela mesma, não se reconhecia no espelho de sempre. As andanças seriam feitas em outros lugares, por outras pessoas.
Se ele voltaria seria mais uma dúvida para não guardar, mais uma poeira para deixar partir. Ela estaria ali, na mesma cidade, na mesma casa, houvesse ventania, houvesse calmaria.
Outra escolha solitária, de um dia solitário. Sentar numa cadeira que gira e deixar o olhar ir todo para cima, desenhando no vazio o perímetro da encruzilhada. A vida é solitária, mas é isso que a torna suportável. Quanto mais ela conduz para esses pontos de incerteza mais é possível acreditar nela, nessa vida não prometida. Nas escolhas de encruzilhadas, ser um fazedor, se reparar na exacerbação, nessa junção de uma coisa na outra, que expulsa uma coisa outra nova. Esse fazer causa um desconforto, porque ele é indefinição, inconstância, intolerância, indisciplina, impaciência. Esse exato desconforto espreme o que conhecemos na parede evidenciando o que desconhecemos. É a mesma sensação de não saber onde colocar as mãos, ou de ter que ajeitar a blusa para sobreviver ao momento fatídico do imprevisto. O que interessa é a passagem e não a apreensão da coisa em si. Cair no fluxo de um tempo inapreensível e desconfortável por essência e não por definição, onde dar conta de nossas decisões é a nota mínima para passar de ano. É a passagem que dá o sentido, como um túnel que liga um lado ao outro, passando por dentro de uma montanha. Nunca se saberia se não vivesse a sobreposição, se não aprendesse que só saberá o que fazer na hora exata e derradeira da incerteza.
* O livro Além de Todo o Gesto foi aprovado pela Lei Cultura e Arte de Vila Velha e contou com o apoio das empresas Cia Brasil Engenharia, Vessa Veículos e Galwan Engenharia.
Quando tudo dorme eu prefiro, você não tem que esconder o seu amor. Observar a imobilidade dos objetos, é quase assustador. É quando tudo se mostra, o inanimado acorda. Eu tento me manter imóvel também, para entrar nessa dança de impossibilidades. É tudo tão possível, tudo tão audível, nos sonhos do dia. A impersistência do que acorda imóvel, nas noites enquanto tudo dorme, permite ao múltiplo uma unicidade sã, permite impossibilidades que preservam, silêncios que curam. O máximo de movimento que alcanço é um cheiro de um bolo que vou bater. O resto é água parada, verso inacabado, cama gelada. Impossibilidades.
Nos olhos drasticamente sinceros de um menino fantasma.
Ninguém vê o menino e suas invenções, suas histórias. Ele não tem medo.
Prefere mergulhar fundo, mesmo que seja a velejar num mar de mentiras, e percorrer o deserto em busca de corujas que lhe oferecerão por nocaute algum tipo de bússola.
O ingresso para enxergar as pupilas da selvageria é impresso em castelos ou iglus, e dorme em pilhas de monstros.
É assim, como de férias no inferno.
Rimbaud também sonhava com expedições, paisagens e monstros.
O menino amadurece no inverno e despede-se sem abraços. Volta para casa no mar sem tempestades.
Enfrentarei a madrugada com dignidade e coragem. A coragem necessária de quem reiteradamente rompe consigo e, por isso, é alvo. Não um alvo fácil, pois esquivar-se de tiros faz parte dos planos de quem enfrenta as próprias verdades escondidas. Já não é preciso sair machucado. Quando existe vazão para o diálogo não há disputa, mas co-criação. Nesse sentido, a minha fala só existe porque a do outro me precede. E assim vamos, nos despindo e nos deixando. Sei que o outro não sou eu, e isso é óbvio e fácil. Nesse lugar habita pouca ou nenhuma evolução. Saber que o outro não sou eu é pouco. O outro é na verdade um acelerador de mim, que me faz sentir também uma outra de mim, pois que enxergo tanto com os seus olhos, que me vejo inúmeras. Quase padeço, quando me atrevo, mas me refaço pela potência que me causa. Um embate não é uma guerra, mas uma celebração de verdades. Um ritual: a entrega para a transgressão, quando morremos para nossas imutabilidades – repetidas ou inventadas; e o reconhecimento da transcendência, quando nos recriamos e seguimos para habitar uma nova terra, que provavelmente será de ninguém – a no man’s land. Chorando os excessos, abrindo a guarda para tiros e enforcamentos, experimentando o elogio e a crítica como uma só coisa. Tateando novos contornos, gozando de cada nova forma disponível. Esse agora é curto, escapa. Muito breve, será necessário buscar nos classificados por uma nova casa. Muito breve, um novo endereço será questão de sobrevivência.
“Não existe mundo fora das muralhas de Verona” (Shakespeare, em Romeu e Julieta)
Labirinto no Giardino Giusto, Verona
Toda viagem pressupõe um deslocamento. Toda viagem tem um ponto de partida, que começa por dentro. Existem momentos que não podem ser fotografados, ou filmados ou descritos. Existem sensações que não podem ser registradas, sob pena de desaparecerem no ato da sua inscrição no mundo.
Então elas (as sensações irregistráveis) habitam esse mundo particular que não traz indicações sobre como chegar. Seguem internalizadas, veladas, e se manifestam numa frequência inesperada.
De repente, não mais que de repente, você se encontra com sua coragem, e os seus sonhos vão se abrindo na estrada, como um tapete vermelho que se desenrola, enquanto seus passos avançam. Enquanto isso, você quer fotografar todas essas horas em que seu coração aperta e você sente uma vontade boa de viver. As lágrimas são a forma mais genuína de traduzir um sentimento, seja ele o contentamento ou a tristeza.
Você se senta à mesa para dividir uma refeição com seu mundo particular, nessa viagem que trilha sozinha.Faz frio bom lá fora e o prato que você pediu é espetacular. O conteúdo da taça borbulha e te esquenta. No volume ideal, você ouve distante, “ti voglio bene assai”, de Caruso. Repousa os talheres no prato e observa o que se apresenta à vista: velas acesas num candelabro de época, quadros renascentistas, uma máquina antiga de cortar frios.
Quando as sobremesas típicas do local lhe são servidas, você dá uma gargalhada por dentro: são os mesmos bolinhos de chuva, disputados por pelo menos 20 primos, nas férias de julho na fazenda.
Enquanto degusta, vêm à tona lembranças quentes, que te acordam como um alarme que toca na hora certa, te lembrando quem você realmente é. Esses momentos – bem que se quer – não são registráveis. Nem nas fotos, nem nos vídeos, nem no papel. As tentativas tornam-se rascunhos esdrúxulos, fios de novelos para dragar da memória aquilo que um dia sentiu.
A verdade só existe através das experiências, que sempre ficam guardadas em algum lugar do passado.Talvez, para Romeu e Julieta, não existisse mundo fora das muralhas de Verona, porque todo o amor que sentiam habitava o seu interior. Não no interior de Verona, propriamente, nem no objeto do amor, mas de onde ele sai. O amor então, é o Romeu e é também a Julieta, fontes geradoras do sentimento.
Quando você percebe isso, avalia o quanto o cotidiano é surpreendente. Dentro das muralhas da sua cidade interior, os bolinhos de chuva te deslocam, para um mergulho ainda mais profundo. E neles estão representados, a experiência, a verdade e o amor que tocaram como um alarme alto, te transportando para a vida que acontece nesta hora preciosa.
Você desiste com alívio de registrar o irregistrável. Agarra-se firme ao fio do novelo. Com ele às mãos, você sempre terá você, assim como Romeu sempre terá Julieta.
Flavia Dalla Bernardina
* (Publicado no Caderno Dois, do Jornal A Gazeta, em 06/02/2010)