Estou chorando. Tudo se banha à minha volta, umedecendo o chão que passa sob meus pés.
Num ato de deliberada desobediência decido que tudo obedecerá o seu próprio tempo. Até mesmo o elevador, que fechará (ou abrirá) sua porta sem pressa, sem que nenhum botão seja apertado, ao não ser o do andar que pretendo chegar.
Penso nas pessoas que se deslocam, errantes ou não. Elas seguem porque fogem ou porque são chamadas. Mas qual a diferença entre fugir de algo e ser chamado por algo?
Penso também na morte e na gentileza dos que elaboram sua potência antes de partirem. Muito claramente compartilham seus registros quando sabem que vão partir, embora nunca saibam quando partirão de fato.
A verdade. Sei que você traz dentro de si uma versão absoluta dos fatos, crenças e gestos arraigados. A verdade não me interessa, se ela já está aí. Porque se ela me interessasse significaria ter que correr atrás dela. Por isso ela me acalma – por não exigir que eu me movimente para tocá-la. Não quero correr, não quero nem mesmo enxergar, mas apenas sentir, ainda que à distância de corpos separados, ainda que ela seja uma obra de ficção.
Proteja-me de mim e de tudo o que posso criar ao meu redor. Permita-me fazer por mim, independente do que digam. O que me alimenta nem sempre me remunera. Deixe-me mais confortável no lugar de solitário. Pode ser que eu nunca fique sozinho de fato, mas solidão maior que a multidão não há.
Garanta que as quinas do meu hexágono nunca sejam lapidadas, para habitar triângulos pré-moldados. Me convide para fazer algo interessante. Não me chame para cumprir protocolos ou para ter boas maneiras. Embora eu as conheça, as regras de etiqueta não me servem, por hora.
Quando a vida está perfeita nos importamos com bobagens. É preciso estar imperfeito para seguir o essencial. Nesse meio tempo, sonho que danço contigo, mas na realidade só danço. Você está apenas na cena, tão ou mais solitário que eu. Eu poderia ter dito, feito, contado, mas viajei, ao invés. Ofereci à forma sua total desproteção, constituindo a sua natureza de inexistência.
Que alívio: equivoquei-me. Tudo está úmido e viscoso ao meu redor. Possibilidades nascem da terra como árvores frutíferas. Estou chovendo.
* Crônica publicada no Caderno Pensar em A Gazeta :: 05.11.11::
Deveria ir ao centro, subir numa pedra, sei lá, tentar enxergar as coisas com mais clareza. Esquecer o que tenho para fazer hoje – nada é tão urgente assim. Ou talvez eu acredite que o pouco que faço é muito. Eu poderia desenhar rascunhos para um mundo melhor, ou esquematizar toda minha vida até lá. ‘Até lá’ seria esse dia, em que o mundo se tornaria melhor. No percurso eu cuidaria muito bem das minhas plantas – não, eu não esqueceria de regá-las ou de deixá-las por algum tempo no sol. Eu até conversaria com elas. Eu organizaria o meu dia para a rotina não cair na rotina. Traria cataventos para embelezar minha sala, mesmo quase sem vento ali. O pouco de ar que entrasse moveria o catavento para o que ele sabe fazer melhor. Sim, em um mundo melhor, tudo de cada coisa funcionaria em seu estado de arte. As pessoas se moveriam na mais alta voltagem.
Estamos todos momentaneamente insatisfeitos, e esse é um momento que não passa nunca. Num mundo melhor, seria muito bom se ficássemos satisfeitos com a insatisfação. É ela que nos leva daqui para lá e para cá de novo, já tendo se tornado outro nessa volta. Em que ponto estamos, se somos parte de uma construção involuntária? No máximo, o que nos oferecem é uma história mal contada. Francamente, uma história bem contada, ainda que sem sentido, deveria ser o mínimo a nos ser ofertado. O máximo teria de ser outra coisa, outra pessoa, outra. Eureka! No meu máximo, eu seria a outra. Estamos aqui para encontrar soluções, antídotos quem sabe, mas não culpados.
Num mundo melhor, aprendemos que aprender é o único caminho, e que não precisamos nos demitir dessa função. Podemos morrer aprendendo, olha que maravilha! Nesse mundo, que tomei para mim, posso querer mais de um lugar. Reformulando: eu posso querer, conseguir e suceder em mais de um lugar. No meu esquema para um mundo melhor eu não encheria o meu tempo à toa, eu deixaria meu tempo ficar um pouco à toa. No meu mundo, médicos vão para a África e salvam pessoas, inclusive aquelas que matam. Os pais ouvem os filhos de verdade. Os órfãos conseguem esquecer que são órfãos. Num mundo melhor, enxerga-se o homem ao lado. Esse meu mundo imaginário se assemelha e muito à caverna mágica, quando a melancolia está bem próxima de se chocar com a Terra. E tudo realmente acaba no impacto, menos a caverna e os sonhos que repousam ali.
Os sonhos não dormem. Estão em estado de vigília e se colocam de prontidão, à revelia de nossas falhas. Afinal, somos insatisfeitos e vivemos cheios de vontades e dúvidas, em alta voltagem. Mundo melhor é seguir imperfeito, rindo, sem saber ao certo o que está fazendo, mas ainda sim fazer; sem saber por onde passa, mas ainda assim, ir.
* Publicado no Caderno Pensar - A Gazeta - de 17:09:2011
Recentemente, Woody Allen realizou um sonho coletivo. Em “Meia-noite em Paris”, como num passe de mágica nas badaladas das doze horas, o protagonista era transportado para a Paris da década de 20.
E lá dividiu garrafas de vinho com Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, viu a grandiosidade de Picasso, esbarrou em Dalí, discutiu com Buñuel – ofereceu o roteiro de “Anjo Exterminador” de mão beijada! - e se confessou com Gertrude Stein.
Em algum ponto do filme, numa das conversas do protagonista do filme com Hemingway, mencionou-se sobre o livro ‘Paris é uma festa’, do próprio Ernest.
Lembrei-me que guardava um exemplar há muito tempo, e por falta dele, ainda não havia degustado seu miolo. E quando adentrei o universo da festa particular de Hemingway em Paris, confirmei minhas percepções que, de fato, essa foi a época de ouro.
Em tempo: li algumas crônicas e ensaios sobre o filme, especialmente da nossa incapacidade de se sentir feliz e pleno no presente. Isso não é novidade alguma: a mente só reconhece passado – sob a forma de saudades ou arrependimento – e futuro – com esperança ou pessimismo. O agora é fugidio demais para nossa cabeça animal. Somos seres controladores por natureza, e sobre o presente não temos domínio algum, a não ser a oportunidade de escolher este ou aquele caminho, sem saber onde eles nos levarão. A incerteza do agora é absurda para nossas vidas cheias de certezas, por isso, optamos por passados e futuros.
Voltemos ao livro. No conto “Miss Stein pontifica”, Hemingway traz uma série de sentimentos que me soam familiares. O primeiro deles é a satisfação de terminar uma tarefa: “ Era maravilhoso descer os longos lances de escada sabendo que meu trabalho correra bem.” Isso requeria “sorte e disciplina”, e só a partir da tarefa cumprida, ele se sentia livre para andar por Paris.
Outro pensamento que reverbera no meu íntimo é sobre o desafio de escrever quando tudo conspira para que o parágrafo nunca termine. Hemingway, otimista, dizia para si mesmo: “Não se aborreça, você sempre escreveu antes e vai escrever agora. Tudo o que tem a fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreva a frase mais verdadeira que puder”.
Achei isso de uma potência extraordinária – escrever a frase mais verdadeira que puder. No mínimo, um bom começo.
Desse raciocínio nasce o último ao qual me debrucei: “Foi naquele quarto, também que aprendi a não pensar mais sobre o que estivesse escrevendo, desde o momento em que parasse até começar de novo, no dia seguinte.” Segundo ele, nessa pausa o subconsciente ficaria trabalhando no assunto, e ao mesmo, ele daria ouvido a outras pessoas e perceberia o mundo ao seu redor, estaria aprendendo.
Adoraria poder conversar com Hemingway sobre essas ponderações, tomando um licor num café, que nos protegeria do frio de Paris. Ou de frequentar o apartamento de Gertrude Stein para que ela pudesse ler, riscar e incentivar alguns escritos meus. Quem sabe ir para uma festa com Zelda Fitzgerald e lá encontrar com Ezra Pound ou Jame Joyce. Se isso não brilha só de ler, sinto informar-lhe, caro leitor, que falta imaginação em sua vida.
Para mim, ainda há tempo, pois não soou as badaladas das doze horas. Estarei pontualmente na porta, esperando a carruagem passar.
*Publicado no Caderno D - Caderno de Cultura do DIO em parceria com a SECULT
edição de setembro de 2011 - http://www.dio.es.gov.br/CadernoDForm.aspx
O título acima lança no palco desta folha a árdua tarefa que terei nessas linhas: o desafio de escrever sobre dança, quando, dançar basta ou sempre bastou.
Aqui não vamos tratar da dança de maneira geral, mas sim, de uma de suas possibilidades, a contemporânea. Nesse sentido, dançar torna-se bem mais que a construção de gestos cheios de significados, e muito mais que a execução plástica desses gestos.
Em tempo – e sem nos esquivar da diferenciação entre passo e gesto: tomemos como conceito de gesto o mecanismo de reorganização e reorientação constante pela qual o corpo deve enfrentar para se desmecanizar e trazer à cena novas possibilidades dos códigos já estabilizados.
Quando passamos a desafiar o próprio corpo, suas potências e desejos, deixamos de ser meros executores de passos, para nos tornar fontes criadoras de gestos. E para isso precisamos de pensar.
Logo, não é tanta heresia assim escrever a dança, considerando que escrever é um pas de deux entre sentir e pensar. Escrever também pode ser uma forma de dançar com as palavras. Este texto, portanto, parece com a criação de gestos com as letras, uma coreografia com os neurônios.
O corpo da dança contemporânea além de habilidoso, deve ser um corpo sensível, comandado por uma cabeça inteligente, disposto a questionar os próprios padrões instaurados.
Foucault trouxe a noção de modelagem do corpo moderno e seu adestramento por meio das tecnologias disciplinares, mais evidentes a partir da Revolução Industrial. O incremento tecnológico e o excesso de informação e comunicação atuam incisivamente na construção da subjetividade humana, não somente na sua memória e inteligência, mas também na sua sensibilidade. Como anteviu Deleuze, o controle age diretamente sobre o processo de subjetivação, invadindo“o amplo espaço entre eu e mim mesmo.”[1]
Esse pensamento invoca um perigo que ameaça a dança contemporânea: a de ser vítima do clichê, e assim reproduzir e repetir padrões, na noção equivocada de si mesma, travestida de uma subjetividade transgressora e inovadora.
O drama na dança contemporânea está quando ela aparenta libertária, desprendida, solta e fluida, enquanto, na verdade, não passa de proposta artística que segue uma tendência. Como disse Jean Baudrillard[2]: “há moda a partir do momento em que uma forma já não se produz segundo as suas determinações próprias, mas a partir do próprio modelo – isto é, nunca é produzida, mas sempre e imediatamente reproduzida.”
Aí a inteligência deve ser aliada à sensibilidade e uma boa dose de auto-crítica para fugir do lugar comum. Não há nada de mal em determinar uma assinatura, ou ser reconhecido por uma linguagem, desde que elas provoquem o seu criador ou o seu executor, mantendo-os em posição de constante xeque-mate.
Essa combinação pode transcender o marketing vazio de corpos cansados, machucados e repetitivos, para a escavação no interior de cada um desses corpos, para que daí nasça um gesto novo, desconhecido até mesmo por quem o executa. O desafio parece ser surpreender a si mesmo.
Vale mencionar aqui, uma passagem do texto de Rosa Primo[3] . A autora citando Karine Saporta[4], no texto “As novas virtuosidades” diz que “como todo artista, o bailarino deve trabalhar para ter consciência de seu talento para desenvolvê-lo. Mas, frequentemente, o que se passa no treinamento do bailarino é o inverso, o que corta rapidamente seu potencial.”
Para Saporta, há duas maneiras de ensinar a dança e/ou coreografar: “inibindo ou, ao contrário, permitindo que se revelem as virtuosidades privilegiadas.” Para ela, “a virtuosidade seria uma certa capacidade do bailarino de saber descontrolar o corpo”.
Continua Rosa Primo: “Em outras palavras, a dança seria o ‘saber-fazer’ descontrolar o corpo, quebrar os modelos, escapar dos diversos condicionamentos.”
Tomemos como rota de saída a ideia de Deleuze sobre técnica, não como um lugar de clausura, mas de porta de entrada para a sensação. A técnica sendo a base para a transgressão.
E que, enquanto artistas, possamos desafiar e desfiar os modelos enraizados internamente, reconhecendo e modificando os condicionamentos do próprio corpo, sendo ele o instrumento primeiro de manifestação da dança. Nem que para isso, tenhamos que, temporariamente, dançar com as palavras.
Flavia Dalla Bernardina
* texto publicado no jornal da aldeia sesc de teatro e dança de 2011
[1]CARDOSO, Helio Rebello. Foucault e Deleuze: em co-participação no plano conceitual. In: ORLANDI, Luiz B. Lacerda (org.) Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
[2] BAUDRILLARD, Jean. A troca simbólica e a morte. Lisboa: Edições 70, 1996.
[3]PRIMO, Rosa. Ligações da dança contemporânea nas sociedades de controle. Lições de Dança 5. Rio de Janeiro: Ed. UniveCidade, 2005.
[4]SAPORTA, Karine. Les nouvelles virtuosities. In: FEBVRE, Michele (Dir.) La Danse au defi. Montréal: Parachute, 1987.
O sinal estava fechado. Ela aguardava impacientemente, ventilando em sua mente tudo o que deveria ser feito naquele dia. Pensava nas tarefas incabadas e no melhor percurso geográfico para utilizar o mínimo de tempo possível. Isso requeria um exercício diário - escolher o melhor caminho não era fácil. O sinal abriu. Ela acelerou gradativamente e deu seta para a esquerda. Assim que entrou na via, olhou para a mão direita como se ali estivesse a resposta para o próximo passo. Depois olhou para a mão contrária, onde estavam vários carros parados em fila, aguardando o sinal abrir. Aquele era um olhar corriqueiro, quase sem importância, como quando se olha nada. Seria qualquer coisa, se segundos antes de desviar ela não tivesse visto um homem de barbas brancas, no banco do motorista, fazer o sinal da cruz.
Hoje tornei a rotina que o dia me prometia possível. Era um rotina qualquer, dessas que me amedronta o bastante para não querer. Isso só aumentava ainda mais o abismo entre mim e as tarefas que aguardavam para serem tocadas. Isso só aumenta o medo de mim mesma. Quem eu posso que não sei? Coragem, mulher! Até que chega a hora em que eu ganho um impulso para desatar esses nós que me mantém. Não me preocupo com a distância que o abismo tem. Eu me rendo a ele e caio nele, na bravura de tentar atravessá-lo. Quando empreendo nessa jornada de não medo do abismo, descubro que ao cair ele me oferece uma cama de molas. Num só rebote, ela me lança à outra margem, para seguir o meu caminho. Hoje foi um dia qualquer. Nada de extra aconteceu nele. Apenas eu, o abismo, e meus afazeres.
Há um tempo que tudo se modificou. Nós gostamos, já que estamos sempre nos provocando para mudar.
Nessa dança, a gente te acompanha, te ganha e aprende de verdade tudo sobre um sentimento novo, muito bonito.
É o melhor que temos dentro de nós, e você tem o imenso poder de trazer tudo isso que existe de mais nobre à tona.
Logo cedinho, quando o sol nem ainda se espreguiça e eu vou te ver, você abre os braços, estica as pernas e abre o sorriso dos anjos que me entrega todo o sentido do dia que está por vir.
O dia poderia acabar ali, mas veja que sorte a minha, eu ainda tenho longas horas pela frente para viver reiteradamente seus olhares curiosos sobre todas as coisas.
A gente demorou para se reencontrar de novo, mas eu sabia que esse dia não tardaria. Eu sabia que essa seria a hora, só não esperava que tudo seria assim, tão imediato.Todas as questões de repente se dissiparam e estão dando lugar a um pouco de remorso e algum entendimento onde não reside palavra alguma. Você, a seu modo, esperou um ciclo de vida se completar e assistiu as coisas serem colocadas nos seus devidos lugares. Nem sei se fez isso conscientemente ou de propósito. Talvez seja melhor saber que esperou por instinto. Não existe nada mais verdadeiro do que seguir o cheiro da intuição, como um bicho que sente como deve sobreviver nesse mundo desconhecido.
Mãe, que momento mais lindo esse para eu te ver, para eu realmente te ver – justamente na hora preciosa em que eu me torno você. Ainda bem que você nem precisou morrer. Sinto vontade de ter minhas impaciências perdoadas. Mas o que são os erros senão tentativas tortas de amar? E foi assim, mãe – é assim – que eu te entendi, porque hoje sinto o amor que tudo pode, o amor sem exigências, sem prazo de validade. Um amor sem nome, formas ou cores. Ainda bem que dias como esse não tardam...Feliz Aniversário.