Tubo de ensaios


DANÇA DE AUTOR*

No texto “A morte do Autor”, Roland Barthes discorre sobre a relevância da linguagem no contexto da criação artística, e afirma com todas as letras: é a linguagem que deve falar e não o autor. Nesse mesmo texto, menciona que Mallarmé foi o primeiro a antever a necessidade de substituir a linguagem pela pessoa que supostamente seria a sua proprietária – no caso, o próprio autor. Em todos os casos, a linguagem deve prevalecer.

Referindo-se especificamente à escrita, explica que para escrever deve-se buscar o ponto onde somente a linguagem atua e não um “eu”. Somente assim – suprimindo o autor é possível restaurar, ou permitir, o leitor ao seu lugar. Barthes afirma que é no leitor onde a multiplicidade de influências do autor se reúne, o leitor é o espaço onde se inscrevem todas as citações de uma escritura.

Transpondo esse raciocínio para a dança, ao despersonalizar o movimento – rasurando seus autores, coreógrafos, bailarinos, o que restaria?

Na dança contemporânea, teríamos duas barreiras a romper – a do coreógrafo e a do bailarino - para que o movimento se torne linguagem que permita o nascimento do espectador, do leitor da dança, e não algo pessoal atrelado ao “eu” do movimento.

Incluo o bailarino nessa dança autoral porque, o coreógrafo, ao traduzir o movimento que pretende para um corpo, surpreende-se com o nascimento de outro gesto, às vezes mais interessante do que aquele que havia sido desenhado intelectualmente.

Nesse sentido, o bailarino é co-autor, e por isso, torna-se também alvo da necessária despersonificação para que se revele a linguagem ali esculpida.

Em prol dessa despersonificação os trabalhos em dança contemporânea primam por um coletivo equânime, afinado, para permitir que a excentricidade de cada indivíduo se destaque em benefício do grupo, e não do indivíduo em si.

Não há nomes no jogo da criação. Se o bailarino torna-se a página em branco, e disponibiliza seu talento a ser veículo por onde a linguagem passa, ele alcança seu propósito de ser meio. A linguagem expressa em movimento é meio por onde a dança se alonga, se estica, se desafia desmedindo qualquer limite imposto para dar à luz ao que existe de mais autêntico, fluido e genuíno: a linguagem anônima, sem idade, rosto, passado ou futuro.

O artista-autor é como uma minhoca, que areja e nutre a terra onde é plantada, fertilizando-a para tantas outras possibilidades. Por isso a experiência da cópia será sempre um vazio incontornável.

A arte são os buracos que resultam do escavamento autoral, que oferece túneis sem assinaturas, fórmulas, ou rastros sem rubricas. Ao espectador, seja ele leitor, plateia ou pedinte, é dado de presente uma mina de tesouros, sem mapa.

Esse é, e sempre será o desafio da arte, e não haveria de ser diferente com a dança. Questionar padrões, trazer à tona questões políticas, de controle, de transformação, de exacerbação. Resgatar as pessoas do cotidiano automático e banal, bailar com destreza entre o belo e o sublime. Há sempre lugares apertados a serem alargados, há sempre espaços abafados que precisam ser ventilados.

 

* Texto publicado na revista ENTREATO, de abril de 2012.



Escrito por Flávia às 15h40
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PINA*

 

Cheguei à sala de cinema e poucas cadeiras me esperavam. A que encontrei me disponibilizou uma vista justa à tela. Tomei um fôlego como se fosse começar um solo, e solos são cruéis: você, os movimentos e seu oxigênio. O prazer e a dor de dançar até o fim.

 A dança habita o espaço vazio deixado pela palavra que não existe. Quando não há como dizer, há dança. Pina Bausch (Phillippine Bausch, Solingen, 27 de julho de 1940Wuppertal, 30 de Junho de 2009), bailarina, coreógrafa e diretora do Tanztheather Wuppertal não precisava ter morrido para se eternizar. A lenda já estava viva.

Wim Wenders dirige com maestria um projeto de mais de duas décadas, que só foi concretizado quando ele conheceu a tecnologia 3D. Essa foi a única maneira que o diretor encontrou para fazer jus à profundidade do trabalho da coreógrafa. Após transpor essa barreira, houve outra inesperada: a morte de Pina, alguns dias após ser diagnosticada de câncer.

Com o peso da ausência sobre os ombros, o diretor assume o lugar de coreógrafo e oferece ângulos impossíveis a um palco italiano: a expressão do rosto do bailarino, a interação dos corpos em outras perspectivas, a mancha de suor no figurino, a intensidade da entrega, os ossos do colo. Wim Wenders nos oferece a dança de Pina, seus braços, sua entrega, sua vida.

Com uma companhia madura – mas que não nasceu jovem – de corpos velhos, talhados, inteligentes, tímidos e loucos, os bailarinos fazem depoimentos ao longo do filme sobre a sua relação com a coreógrafa. E Pina parece saber mais deles do que eles mesmos, por isso os olhares de tristeza, o discurso de saudade. Mestres nos orientam por um tempo, e nos deixam de repente. Esse é o teste do discípulo - seguir sozinho.

Pina pouco falava, deixava que o bailarino se descobrisse por si mesmo. Para emergir o movimento verdadeiro é preciso lidar com os próprio dramas, se apropriar das falhas como algo virtuoso, genuíno. Suas pontuações eram essenciais como suas coreografias: não tenha medo, não seja tímido, enlouqueça e dance, dance por amor.

Os corpos que se soltam em direção ao nada, a música que penetra os poros para ligar a poesia à carne, a água, a pedra e a terra. Os braços, os lindos braços de Pina que dizem muito mais do que poderiam pretender. A obra se ilumina na medida em que os bailarinos interagem com a cidade. Duos em cruzamentos, solos em metrôs, performances no subsolo. Dançar no precipício, em desertos ou castelos de vidro. Essa é a dança que traz a vida à tona.

O filme acabou e eu, ainda extasiada, não havia recuperado o fôlego. Como se tivesse inspirado no início do filme, e só. Uma combinação de saudades, vontades e ideias. Do que vivi, do que poderia ter vivido e do que viverei. Do amor que distribuí de graça e daquele que me privei. Fiquei um tempo na cadeira, pensando em nada. Soltei o ar devagar, assimilando os sentimentos.

Uma das bailarinas espera ansiosamente sonhar com Pina. Quem sabe a aparição onírica lhe daria um conforto desnecessário. Ela ainda vai descobrir que o desconforto é sua maior herança, sua criatividade. Mesmo sabendo que ela nunca lerá esse texto, lhe digo: não espere por Pina, nem em sonhos, nem em aparições. Dance, dance, caso contrário, estaremos perdidos.

* Texto publicado no Caderno Pensar, em A Gazeta, de 14.04.2012.

 



Escrito por Flávia às 20h25
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NÃO CITE, SEJA

Eu tomei banho e nem me dei conta de que já estava limpa.

Qual é a vantagem de dar contorno a um vazio?

Para que ele não extravase por espaços onde não pertença?

Para que não se aproprie aos poucos do que já está preenchido, como um buraco negro, que suga tudo o que perpassa seu perímetro?

Meus pensamentos me constituem, quando preciso me desfazer deles.

Não há razão para escrever, porque não existe mais nada a ser escrito, não existem questões a serem dilaceradas no papel.

Nada precisa ser explicado.

Já está tudo exposto.



Escrito por Flávia às 16h53
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Devo me adequar ou seguir perdoando?

Crer que a vida tem um chamado, um propósito definido a desempenhar.

Justificativas...

O silêncio como saída para o enfrentamento.

Tudo torto e tudo certo.

Mesmo o que não é visto, está aberto.

Uma vertigem, uma saudade, dois olhos,

 e a desnecessidade de permanecer exposto.

De nada adianta o filtro solar.

Essa é uma verdade: de nada adianta se proteger com filtro solar,

se o sol sempre vai brilhar mais forte.



Escrito por Flávia às 22h02
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STELLA


Sigo rápido, rápido. A vida vem atrás me pedindo para crescer. Eu vejo as coisas. Eu entendo, mas não sei dizer. Acho que a minha compreensão está atrás da mente. Ou melhor, a mente não participa da minha compreensão. O que acontece comigo é grande, mas parece bobo. Talvez por perceber que seja grande, eu diminuo para que não seja tão grande assim. É assim que vou suportando todas as passagens, todas as idades, é assim que vou suportando crescer. É verdade, não adianta diminuir. Tudo continua grande dentro de mim. Eu sinto muito pelo dia em que começarei a negociar e deixar a mente participar de algumas decisões. Por enquanto, tudo é o que é. Penso constantemente em ficar mais velha. Quem sabe essas angústias acabam. Com a chave do carro na mão e um filho, minhas dúvidas dissiparão, minhas pequenezas se tornarão maiores. Ouço e discordo, mas ainda não tenho voz, ainda não posso falar. Estou crescendo e como não sei para onde vou, ainda não sou vista. Quem me enxerga está geralmente na mesma idade que eu. Algumas pessoas mais velhas que devem ser sensíveis me olham nos olhos e sinto que me veem como eu realmente sou. Eu me animo, com esperança, com meus grandes olhos amendoados e minha boca pequena, que pouco fala. Elas veem além disso. Talvez elas enxerguem a grandeza das minhas pequenezas. Tenho um amigo com quem gosto de conversar. Ele admira a minha inocência e teme pelo mundo e pelo que ele pode fazer comigo. Ele nunca me disse, mas tem medo que eu cresça e mude, que perca a pureza. Mas sem a pureza o que sobra em mim? Eu acho que nada, por isso, desde agora, vou estar atenta para crescer com destreza, jogo de cintura, olhar profundo e sentimento. Vou me admitir. Vou me admitir na minha própria vida, com as profundezas que me escolhem para ser eu. Só consigo pensar em minhas qualidades e defeitos como meus amigos, porque eles me escolhem para que eu seja cada vez mais eu – sem ser tanto eu assim. Ainda sigo rápido, mas já desacelerei. As músicas e os livros me ajudam a perceber as coisas na velocidade do silêncio. Parece que estou no mesmo ritmo, mas não, eles tem a habilidade de me parar para perceber as bonecas na minha estante, que um dia tanto gostei, perderem o sentido. Elas poderiam ir para o lixo, mas está difícil me desfazer delas. Elas olham para mim, mortas. Eu também já morri com elas. Está na hora. Não sei como será, ainda não tenho chave de carro, nem filho. Despeço-me explicitamente com um banho de mangueira. Molho minha amiga, fazemos bagunça. Acho que isso vai continuar, com menos frequência, mas deve continuar. Corro, paro, gargalho. Sinto saudades, mas tenho que ir. Chegou a hora.

 

 



Escrito por Flávia às 11h28
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Há sempre algo que prescinde, que prevê.

Mas nada verdadeiramente antecipa.

Escrevo como se ouvisse uma música e não há som algum que eu alcance agora.

Traz em mim esse fogo que me rompe e me constrói.

A poesia me desmorona e me restitui, me ignora e me cura, me entristece e me traduz.

Nada como uma conversa e um silêncio para tornar tudo possível, para tornar o vazio possível.

Estou limpa e a sensação é estranha porque é nova - me sinto lavada.

No desconforto está tudo equivocadamente bem.

Eu só preciso fechar os olhos.



Escrito por Flávia às 21h03
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A VIDA QUE EU QUERIA

Quem mora com aventureiro...

 

...is always on the search

VEM 2012!



Escrito por Flávia às 23h15
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PROTEJA-ME DA FORMA*

 

Estou chorando. Tudo se banha à minha volta, umedecendo o chão que passa sob meus pés.

Num ato de deliberada desobediência decido que tudo obedecerá o seu próprio tempo. Até mesmo o elevador, que fechará (ou abrirá) sua porta sem pressa, sem que nenhum botão seja apertado, ao não ser o do andar que pretendo chegar.

Penso nas pessoas que se deslocam, errantes ou não. Elas seguem porque fogem ou porque são chamadas. Mas qual a diferença entre fugir de algo e ser chamado por algo?

Penso também na morte e na gentileza dos que elaboram sua potência antes de partirem. Muito claramente compartilham seus registros quando sabem que vão partir, embora nunca saibam quando partirão de fato.

A verdade. Sei que você traz dentro de si uma versão absoluta dos fatos, crenças e gestos arraigados. A verdade não me interessa, se ela já está aí. Porque se ela me interessasse significaria ter que correr atrás dela. Por isso ela me acalma – por não exigir que eu me movimente para tocá-la. Não quero correr, não quero nem mesmo enxergar, mas apenas sentir, ainda que à distância de corpos separados, ainda que ela seja uma obra de ficção.

Proteja-me de mim e de tudo o que posso criar ao meu redor. Permita-me fazer por mim, independente do que digam. O que me alimenta nem sempre me remunera. Deixe-me mais confortável no lugar de solitário. Pode ser que eu nunca fique sozinho de fato, mas solidão maior que a multidão não há.

Garanta que as quinas do meu hexágono nunca sejam lapidadas, para habitar triângulos pré-moldados. Me convide para fazer algo interessante. Não me chame para cumprir protocolos ou para ter boas maneiras. Embora eu as conheça, as regras de etiqueta não me servem, por hora.

Quando a vida está perfeita nos importamos com bobagens. É preciso estar imperfeito para seguir o essencial. Nesse meio tempo, sonho que danço contigo, mas na realidade só danço. Você está apenas na cena, tão ou mais solitário que eu. Eu poderia ter dito, feito, contado, mas viajei, ao invés. Ofereci à forma sua total desproteção, constituindo a sua natureza de inexistência.

Que alívio: equivoquei-me. Tudo está úmido e viscoso ao meu redor. Possibilidades nascem da terra como árvores frutíferas. Estou chovendo.

 

* Crônica publicada no Caderno Pensar em A Gazeta :: 05.11.11::

 



Escrito por Flávia às 21h44
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FERMATA

O que a maré traz é seu

 

 

A inconsequência do inconsciente

 

 

Eu não te amo mais

 

 

FERMATA.

 

* Museu Vale - até 12 de fevereiro de 2012

www.museuvale.com



Escrito por Flávia às 22h05
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CRÍTICOS

 "Toda crítica é uma autobiografia" (Oscar Wilde)



ou todo mundo tem pele fina

ou quem é esse você que não está envolvido?

críticas à parte, vale o ingresso.


 

 

 



Escrito por Flávia às 19h58
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UM MUNDO MELHOR*

 

Deveria ir ao centro, subir numa pedra, sei lá, tentar enxergar as coisas com mais clareza. Esquecer o que tenho para fazer hoje – nada é tão urgente assim. Ou talvez eu acredite que o pouco que faço é muito. Eu poderia desenhar rascunhos para um mundo melhor, ou esquematizar toda minha vida até lá. ‘Até lá’ seria esse dia, em que o mundo se tornaria melhor. No percurso eu cuidaria muito bem das minhas plantas – não, eu não esqueceria de regá-las ou de deixá-las por algum tempo no sol. Eu até conversaria com elas. Eu organizaria o meu dia para a rotina não cair na rotina. Traria cataventos para embelezar minha sala, mesmo quase sem vento ali. O pouco de ar que entrasse moveria o catavento para o que ele sabe fazer melhor. Sim, em um mundo melhor, tudo de cada coisa funcionaria em seu estado de arte. As pessoas se moveriam na mais alta voltagem.

Estamos todos momentaneamente insatisfeitos, e esse é um momento que não passa nunca. Num mundo melhor, seria muito bom se ficássemos satisfeitos com a insatisfação. É ela que nos leva daqui para lá e para cá de novo, já tendo se tornado outro nessa volta. Em que ponto estamos, se somos parte de uma construção involuntária? No máximo, o que nos oferecem é uma história mal contada. Francamente, uma história bem contada, ainda que sem sentido, deveria ser o mínimo a nos ser ofertado. O máximo teria de ser outra coisa, outra pessoa, outra. Eureka! No meu máximo, eu seria a outra. Estamos aqui para encontrar soluções, antídotos quem sabe, mas não culpados.

Num mundo melhor, aprendemos que aprender é o único caminho, e que não precisamos nos demitir dessa função. Podemos morrer aprendendo, olha que maravilha! Nesse mundo, que tomei para mim, posso querer mais de um lugar. Reformulando: eu posso querer, conseguir e suceder em mais de um lugar. No meu esquema para um mundo melhor eu não encheria o meu tempo à toa, eu deixaria meu tempo ficar um pouco à toa. No meu mundo, médicos vão para a África e salvam pessoas, inclusive aquelas que matam. Os pais ouvem os filhos de verdade. Os órfãos conseguem esquecer que são órfãos. Num mundo melhor, enxerga-se o homem ao lado. Esse meu mundo imaginário se assemelha e muito à caverna mágica, quando a melancolia está bem próxima de se chocar com a Terra. E tudo realmente acaba no impacto, menos a caverna e os sonhos que repousam ali.

Os sonhos não dormem. Estão em estado de vigília e se colocam de prontidão, à revelia de nossas falhas. Afinal, somos insatisfeitos e vivemos cheios de vontades e dúvidas, em alta voltagem. Mundo melhor é seguir imperfeito, rindo, sem saber ao certo o que está fazendo, mas ainda sim fazer; sem saber por onde passa, mas ainda assim, ir.

 

* Publicado no Caderno Pensar - A Gazeta - de 17:09:2011

 



Escrito por Flávia às 10h01
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PARIS É UMA FESTA*

Recentemente, Woody Allen realizou um sonho coletivo. Em “Meia-noite em Paris”, como num passe de mágica nas badaladas das doze horas, o protagonista era transportado para a Paris da década de 20.

E lá dividiu garrafas de vinho com Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, viu a grandiosidade de Picasso, esbarrou em Dalí, discutiu com Buñuel – ofereceu o roteiro de “Anjo Exterminador” de mão beijada! - e se confessou com Gertrude Stein.

Em algum ponto do filme, numa das conversas do protagonista do filme com Hemingway, mencionou-se sobre o livro ‘Paris é uma festa’, do próprio Ernest.

Lembrei-me que guardava um exemplar há muito tempo, e por falta dele, ainda não havia degustado seu miolo. E quando adentrei o universo da festa particular de Hemingway em Paris, confirmei minhas percepções que, de fato, essa foi a época de ouro.

Em tempo: li algumas crônicas e ensaios sobre o filme, especialmente da nossa incapacidade de se sentir feliz e pleno no presente. Isso não é novidade alguma: a mente só reconhece passado – sob a forma de saudades ou arrependimento – e futuro – com esperança ou pessimismo. O agora é fugidio demais para nossa cabeça animal. Somos seres controladores por natureza, e sobre o presente não temos domínio algum, a não ser a oportunidade de escolher este ou aquele caminho, sem saber onde eles nos levarão. A incerteza do agora é absurda para nossas vidas cheias de certezas, por isso, optamos por passados e futuros.

Voltemos ao livro. No conto “Miss Stein pontifica”, Hemingway traz uma série de sentimentos que me soam familiares. O primeiro deles é a satisfação de terminar uma tarefa: “ Era maravilhoso descer os longos lances de escada sabendo que meu trabalho correra bem.” Isso requeria “sorte e disciplina”, e só a partir da tarefa cumprida, ele se sentia livre para andar por Paris.

Outro pensamento que reverbera no meu íntimo é sobre o desafio de escrever quando tudo conspira para que o parágrafo nunca termine. Hemingway, otimista, dizia para si mesmo: “Não se aborreça, você sempre escreveu antes e vai escrever agora. Tudo o que tem a fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreva a frase mais verdadeira que puder”.

Achei isso de uma potência extraordinária – escrever a frase mais verdadeira que puder. No mínimo, um bom começo.

Desse raciocínio nasce o último ao qual me debrucei: “Foi naquele quarto, também que aprendi a não pensar mais sobre o que estivesse escrevendo, desde o momento em que parasse até começar de novo, no dia seguinte.” Segundo ele, nessa pausa o subconsciente ficaria trabalhando no assunto, e ao mesmo, ele daria ouvido a outras pessoas e perceberia o mundo ao seu redor, estaria aprendendo.

Adoraria poder conversar com Hemingway sobre essas ponderações, tomando um licor num café, que nos protegeria do frio de Paris. Ou de frequentar o apartamento de Gertrude Stein para que ela pudesse ler, riscar e incentivar alguns escritos meus. Quem sabe ir para uma festa com Zelda Fitzgerald e lá encontrar com Ezra Pound ou Jame Joyce. Se isso não brilha só de ler, sinto informar-lhe, caro leitor, que falta imaginação em sua vida.

Para mim, ainda há tempo, pois não soou as badaladas das doze horas. Estarei pontualmente na porta, esperando a carruagem passar.

 

*Publicado no Caderno D - Caderno de Cultura do DIO em parceria com a SECULT

edição de setembro de 2011 - http://www.dio.es.gov.br/CadernoDForm.aspx
 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Flávia às 16h18
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O DESAFIO DE ESCREVER SOBRE DANÇA*

O título acima lança no palco desta folha a árdua tarefa que terei nessas linhas: o desafio de escrever sobre dança, quando, dançar basta ou sempre bastou.

Aqui não vamos tratar da dança de maneira geral, mas sim, de uma de suas possibilidades, a contemporânea. Nesse sentido, dançar torna-se bem mais que a construção de gestos cheios de significados, e muito mais que a execução plástica desses gestos.

 Em tempo – e sem nos esquivar da diferenciação entre passo e gesto:  tomemos como conceito de gesto o mecanismo de reorganização e reorientação constante pela qual o corpo deve enfrentar para se desmecanizar e trazer à cena novas possibilidades dos códigos já estabilizados.

Quando passamos a desafiar o próprio corpo, suas potências e desejos, deixamos de ser meros executores de passos, para nos tornar fontes criadoras de gestos. E para isso precisamos de pensar.

Logo, não é tanta heresia assim escrever a dança, considerando que escrever é um pas de deux entre sentir e pensar. Escrever também pode ser uma forma de dançar com as palavras. Este texto, portanto, parece com a criação de gestos com as letras, uma coreografia com os neurônios.

O corpo da dança contemporânea além de habilidoso, deve ser um corpo sensível, comandado por uma cabeça inteligente, disposto a questionar os próprios padrões instaurados.

Foucault trouxe a noção de modelagem do corpo moderno e seu adestramento por meio das tecnologias disciplinares, mais evidentes a partir da Revolução Industrial. O incremento tecnológico e o excesso de informação e comunicação atuam incisivamente na construção da subjetividade humana, não somente na sua memória e inteligência, mas também na sua sensibilidade. Como anteviu Deleuze, o controle age diretamente sobre o processo de subjetivação, invadindo  “o amplo espaço entre eu e mim mesmo.”[1]

Esse pensamento invoca um perigo que ameaça a dança contemporânea: a de ser vítima do clichê, e assim reproduzir e repetir padrões, na noção equivocada de si mesma, travestida de uma subjetividade transgressora e inovadora.

O drama na dança contemporânea está quando ela aparenta libertária, desprendida, solta e fluida, enquanto, na verdade, não passa de proposta artística que segue uma tendência. Como disse Jean Baudrillard[2]: “há moda a partir do momento em que uma forma já não se produz segundo as suas determinações próprias, mas a partir do próprio modelo – isto é, nunca é produzida, mas sempre e imediatamente reproduzida.”

Aí a inteligência deve ser aliada à sensibilidade e uma boa dose de auto-crítica para fugir do lugar comum. Não há nada de mal em determinar uma assinatura, ou ser reconhecido por uma linguagem, desde que elas provoquem o seu criador ou o seu executor, mantendo-os em posição de constante xeque-mate.

Essa combinação pode transcender o marketing vazio de corpos cansados, machucados e repetitivos, para a escavação no interior de cada um desses corpos, para que daí nasça um gesto novo, desconhecido até mesmo por quem o executa. O desafio parece ser surpreender a si mesmo.

Vale mencionar aqui, uma passagem do texto de Rosa Primo[3] . A autora citando Karine Saporta[4], no texto “As novas virtuosidades” diz que “como todo artista, o bailarino deve trabalhar para ter consciência de seu talento para desenvolvê-lo. Mas, frequentemente, o que se passa no treinamento do bailarino é o inverso, o que corta rapidamente seu potencial.”

Para Saporta, há duas maneiras de ensinar a dança e/ou coreografar: “inibindo ou, ao contrário, permitindo que se revelem as virtuosidades privilegiadas.” Para ela, “a virtuosidade seria uma certa capacidade do bailarino de saber descontrolar o corpo”.

Continua Rosa Primo: “Em outras palavras, a dança seria o ‘saber-fazer’ descontrolar o corpo, quebrar os modelos, escapar dos diversos condicionamentos.”

Tomemos como rota de saída a ideia de Deleuze sobre técnica, não como um lugar de clausura, mas de porta de entrada para a sensação. A técnica sendo a base para a transgressão.

E que, enquanto artistas, possamos desafiar e desfiar os modelos enraizados internamente, reconhecendo e modificando os condicionamentos do próprio corpo, sendo ele o instrumento primeiro de manifestação da dança. Nem que para isso, tenhamos que, temporariamente, dançar com as palavras.

Flavia Dalla Bernardina


* texto publicado no jornal da aldeia sesc de teatro e dança de 2011



[1] CARDOSO, Helio Rebello. Foucault e Deleuze: em co-participação no plano conceitual. In: ORLANDI, Luiz B. Lacerda (org.) Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

[2] BAUDRILLARD, Jean. A troca simbólica e a morte. Lisboa: Edições 70, 1996.

[3] PRIMO, Rosa. Ligações da dança contemporânea nas sociedades de controle. Lições de Dança 5. Rio de Janeiro: Ed. UniveCidade, 2005.

[4] SAPORTA, Karine. Les nouvelles virtuosities. In: FEBVRE, Michele (Dir.) La Danse au defi. Montréal: Parachute, 1987.

 



Escrito por Flávia às 01h12
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Virei abertamente para isso que se chama sentir.

Virei sem dizer, sem pensar, sem escrever.

Porque sim, muitas vezes só sinto quando escrevo.

O que sou no resto do tempo, então?

Um pedaço de mim mesma que mora longe?

Um pouco do outro que mora em mim?

Alguém que quer fazer bem?

Poderia fazer melhor, se não quisesse fazer tão bem...

Alguém já disse isso.

Alguém já disse também que se for copiar que seja dos melhores.

,,,

Nenhum deles chora. Estão tão dentro da vida que não choram.

Perdem, sabem que perderam, mas não choram.

Está tudo corroído por dentro e não há lágrimas que bastem para derramar.

Mesmo se houvesse de nada adiantaria.

De nada...

No futuro? Não vemos nada.

Somente crianças tentando ser felizes.

 



Escrito por Flávia às 19h58
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Eu nem parei para olhar ao redor e perceber as coisas que me cercam.

Começo a me questionar da essência de todas essas coisas inanimadas que me cercam.

E se elas falassem? O que diriam a mim? O que diriam de mim?

Estão todos os dias ali para mim, sem esperar nada em troca, como um animal de estimação.

Servem à mim e aos meus anseios, todas essas coisas que ajeitei do meu jeito.

E enquanto me servem à expectativa dos meus anseios são capazes de me elevar para outros lugares. É possível que me acometam de memórias.

Como uma canção conseguem me trazer sentimentos.

E quando percebo, vejo isso. Tudo isso que é tão possível, e que está aqui todos os dias.

É que raramente eu paro para olhar ao redor as coisas que me cercam.

 



Escrito por Flávia às 17h23
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